Tuesday, January 07, 2003



DIA 5 - De Puno para Cuzco

Informação importante que esqueci de registrar ontem: Puno já está em território peruano. Logo após que sai de Copacabana, o ônibus pára na fronteira. Todos então são convidados a descer, caminhar até o posto da imigração boliviana, passar também pela imigração peruana e depois voltar ao ônibus.

Legal cruzar a fronteira a pé. Agora no Peru, as diferenças são pequenas, mas vão se notando aos poucos.

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Voltando ao dia de hoje, a saída de Puno repetiu o roteiro da saída de La Paz. Acordar cedo, empacotar as coisas, tomar um café da manhã meia-boca e correr para pegar o ônibus. Finalmente agora com destino à Cuzco.

Ainda na estação, houve um atraso de uma hora na saída. Parece que um protesto de estudantes fechou a estrada de acesso à cidade. Olhando pelo lado positivo, melhor ter a estrada bloqueada por estudantes do que pelo Sendero Luminoso.

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Valeu a pena fazer a viagem durante o dia, a paisagem é maravilhosa. O caminho já não acompanha mais o Lago Titicaca, agora vamos entrando pelo meio das montanhas. Como bom brasileiro que nunca tocou em um floco de neve na vida, uma das coisas que acho fascinante são os montes nevados que, de quando em quando, aparecem no horizonte. E desta vez eles não estavam no horizonte, mas bem ali ao lado da estrada.

No meio do trajeto paramos em um local chamado La Raya, um marco do local de maior altitude no caminho entre Puno e Cuzco, algo em torno de 4200 metros acima do mar. Dali em diante, cada vez mais vamos afundando em vales, cada vez mais estreitos e contornados por montanhas cada vez maiores. O trajeto vira estrada de serra mesmo, e a paisagem vai se tornando mais verde, bonita e diferente.

No fundo dos vales, campos sempre cultivados ou cheios de pastores e ovelhas. As plantações parecem mais ricas e fartas que na Bolívia. Em certo ponto, a estrada começa a acompanhar o rio que corta o vale. O dia cheio de sol também contribuía para a paisagem. Bonito, muito bonito mesmo.

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Não resisti em ligar meu disc-man e gastar mais duas pilhas pequenas ouvindo um cd. Precisava de uma trilha sonora para completar esse visual.

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Juro que, em um certo ponto da estrada, vi um dos pastores de ovelhas vestindo uma camisa da nossa seleção canarinho. E era a camisa 2, do capitão Cafu.

Juro que vi.

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Ao chegar à estação de ônibus de Cuzco, uma quizumba danada: cheio de gente te oferecendo táxi, pensão, hotel, dólares... Sexo, drogas e rock´n´roll também deviam estar disponíveis, era só procurar.

Peguei logo o primeiro táxi que vi e fui direto à pensão que o casal de ingleses de Copacabana haviam me indicado: o Hostal Magnólia.

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Dona Ivone, dona do hostal, é um amor de pessoa. Logo após eu me instalar, já veio se apresentando e se oferecendo para me dar as informações turísticas de Cuzco.

Me explicou todos os detalhes, opções, duração dos passeios, se ofereceu para comprar minha passagem de volta para La Paz. Agradeci, e ela retrucou dizendo que ali ela era “a minha mãe”.

Podem dizer que isso foi um golpe baixo de marketing de fidelização, mas só sei de uma coisa: Dona Ivone me conquistou.

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Por outro lado, essa também foi uma hora de decepção: mesmo fazendo diferentes arranjos, apertando aqui e acolá, eu não teria tempo suficiente para fazer a Trilha Inca.

A Trilha Inca é uma das maneiras de se chegar a Machu Picchu e, supostamente, a mais interessante. Ao invés de ir às ruínas diretamente via trem e ônibus, desce-se no meio do caminho e percorre-se quatro dias de trilha por dentro da floresta.

Faz-se isso obrigatoriamente através de grupos guiados e organizados pelas agências turísticas da cidade. A questão é que eram necessários três dias de antecedência para reservar um lugar em grupo de uma agência confiável. Com esse prazo somado aos quatro dias de trilha, não conseguiria voltar a La Paz a tempo de pegar o avião para São Paulo.

Fiquei muito frustrado naquela hora. Caramba, que merda, podia ter corrido mais um pouco e chegado um dia antes a Cuzco. Por outro lado, também já estava um pouco reticente quanto a fazer a trilha. Além de ser bem caro (em média US$ 180,00), está chovendo praticamente todo o final de tarde e realmente eu não estou a fim de dormir igual a um pinto molhado. Mesmo assim, fiquei decepcionado.

Poderia tentar encontrar outras agências menores (o que o pessoal da pensão não recomendou) ou fazer uma agenda suicida apertadíssima, coisa como chegar de ônibus em La Paz duas horas antes do vôo decolar. Mas também não queria transformar a viagem num programa de índio, muito menos ficar me estressando com horários.

Pronto, depois de todo esse embate mental (e quem me conhece sabe que esse tipo de decisão acaba comigo...) decidi não fazer a trilha e optar por um jeito intermediário de chegar a Machu Picchu. Nem o trekking radical, mas também não no meio da manada de turistas.

Mas esse jeito eu deixo para contar depois.

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Após decidir tudo, saí para dar a primeira volta por Cuzco e aproveitar para comer alguma coisa.

A pensão fica há algumas quadras do centro da cidade. Daí que a sensação da primeira vez que se entra na Plaza de Armas de Cuzco, a principal da cidade, é muito foda. Com o perdão da força da palavra.

A praça, não se bastando com a Catedral da cidade, ainda ostenta outra igreja, talvez ainda mais bonita que a primeira, a La Compañia. Já era noite e ambas as igrejas estavam iluminadas , ambas exibindo o estilo barroco da colonização espanhola.

Para completar., a praça ainda é contornada por arcadas, também coloniais, detrás das quais ficam os cafés, restaurantes e lojinhas turísticas diversas.

Caramba, com esse cartão de visitas já posso passar um mês nesta cidade.

Monday, December 23, 2002



DIA 4 - De Copacabana à Puno

Ontem acabei esquecendo de falar sobre a Ilha do Sol. E não dá pra passar assim batido, afinal o lugar é maravilhoso. Fez valer todo o frio que passamos no barco até chegar lá.

Após atravessarmos metade do Lago Titicaca (olha que isso é água que não acaba mais...), nos aproximamos da ilha, contornamos um pouco um trecho bastante árido da costa e entramos numa pequena baía onde os barcos podem atracar.

A baía é linda. Ainda por cima, demos sorte com o tempo - o céu aberto e o sol forte deixaram a água do lago num azul espetacular. À primeira vista, a Ilha do Sol lembra uma daquelas praias mais isoladas da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Areia clara, vegetação ao fundo, poucos sinais de civilização, alguns casebres poucos, bicho-grilos tocando violão na praia.

Um pouco mais tarde, ao se adentrar na ilha e começar a subir pela encosta através de uma velha escadaria de pedra, a paisagem começa a mudar. E o que parecia uma praia paradisíaca qualquer, vai ganhando detalhes de uma Bolívia de muitos anos atrás.

As montanhas que contornam a baía sobem de forma bastante íngreme e, por todas elas, vêem-se pequenas plantações e casebres de pedra equilibrando-se pelas encostas. Subindo a escadaria, é preciso desviar-se de alguns carneiros, porcos e até llamas. Lá embaixo a praia vai ficando mais bonita. contornada pela moldura colorida dos diversos tons de verde separados pelas cercas de pedra.

Entre nós, gringos, também vão subindo a montanha as donas do local, algumas velhas bolivianas com fortes traços indígenas, trajes típicos e aquele característico chapéu de coco engraçado. É claro, o ponto é turístico e como tal, milhares de chiquititas, devidamente vestidas folcloricamente e postadas em locais estratégicos, não páram de oferecer-se para fotos e consequentes gorjetas.

Lembrei das longíquas aulas de literatura, quando os poetas clássicos enalteciam a vida pastoral. Essa era a palavra que me veio à cabeça. Tudo aquilo formava uma paisagem pastoral, totalmente bucólica. E lá na frente, do outro lado da imensidão do lago, uma cordilheira de picos nevados postava-se no horizonte.

Fica a dica: é possível passar a noite na Ilha. Existem algumas pensões com preços acessíveis. Eu perdi a oportunidade, mas com certeza vale a pena.

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Mas isso foi ontem...

Hoje pela manhã, para aproveitar o tempo que tinha antes de tomar o ônibus para Puno, resolvi subir outra escadaria de pedra. Desta vez, a da montanha que fica ao lado da praia de Copacabana.

Na verdade, o caminho da escadaria é literalmente um calvário. A cada patamar encontra-se um altar representando as doze etapas do calvário de Cristo.

A paisagem lá de cima é impressionante. Mas haja joelhos...

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No caminho fui conversando com Stefania, a italiana que conheci ontem no passeio de barco. Formada em Literatura pela medieval Universidade de Bologna, fã de música brasileira, leitora de Jorge Amado e Clarice Lispector, trinta e sete anos de idade. Muito legal, gente finíssima, cabeça aberta. Talvez aberta demais, pois parece que ainda não achou seu caminho.

Conversamos sobre profissões e vocações. Ela se formou, não se empregou, agora viaja. Por algum motivo que não entendi e que talvez nem ela saiba, quer sair da Itália. Chegou até a entrar em contacto com algumas ONGs da América Latina, tem interesse grande por causas humanitárias.

Falando assim parece que ela é algum bicho-grilo. Mas não é preciso ser bicho-grilo para se sentir perdido nesta vida.

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Tomei uma xícara de chá de coca pela manhã e depois masquei algumas folhas durante a subida da escadaria. Parece que ajudou no fôlego. Na verdade, não tenho muita certeza, mas dizem que ajuda. Cheguei lá em cima com a gargante um pouco dormente. Mas passou logo.

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Lá em cima do calvário, onde a vista de Copacabana é linda, encontramos Hugo. Hugo que é italiano e que puxou conversa conosco pois ouviu
uma conversa a respeito do Rio Pó, o maior da Itália. Hugo, psicanalista de Torino, trabalha hoje na Associação das Mães da Praça de Maio, em Buenos Aires. Ajuda na procura pelos filhos dos desaparecidos durante a ditadura militar argentina. Passa curtas férias na Bolívia, pois no dia 4 de dezembro volta para uma grande passeata no centro da capital argentina. Foi no início do ano ao Fórum Social de Porto Alegre. Deve ter, no mínimo, mais de cinquenta anos de idade. Conta tudo com brilho nos olhos. Bonito.

Isso é o que chamo de social-globalização...

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Despedidas são despedidas. Mesmo aquelas de amigos que se fez ontem.

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Na viagem de Puno me deu uma sensação de felicidade. Como se caísse a ficha, caramba, olha só, estou aqui fazendo o que tinha planejado. É bom por o pé na estrada. Apesar da saudade dos que estão em casa, era bom estar ali. Sem ansiedade de cumprir a missão, chegar ao objetivo. Sem pressa de terminar ou medo de começar. Apenas ali, andando para frente, naquele momento.

As montanhas iam passando na janela, cada vez maiores e mais verdes.

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Chegando a Puno, começou a chover. Acabei tendo que me alojar no primeiro hotel encontrado, apesar de tê-lo achado meio caro. Sensação ruim.

Saí um pouco depois para procurar a passagem de trem para Cuzco. Muito cara, cinquenta dólares. Ainda chovia e acabei me molhando todo para nada - optei por ir de ônibus e comprei a passagem no hotel mesmo.

Meu humor foi lá pra baixo. Calça e tênis encharcados. Medo de dor de garganta. Joelho inchado. Acho que é hora de descansar e se cuidar um pouco: banho quente, spray de própolis, pomada Gelol e 100 páginas do livro do André Takeda para lavar a alma.

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E amanhã, rumo à estação Cuzco...

Thursday, December 19, 2002



DIA 3 - De La Paz à Copacabana

Estava programado para sair de La Paz às 8 da manhã. Seriam 3 horas de viagem até Copacabana. Bem, isso era o programado. O que aconteceu foi um pouquinho diferente.

O ônibus que peguei, se não era uma daquelas peruas de lotação que infestam La Paz assim como fazem com São Paulo, era um mini-ônibus, bem velhaco, que me trouxe uma lembrança no mínimo inusitada. De alguma forma me lembrou de um ônibus que Michael Douglas guiava no filme "Tudo por uma Esmeralda". Putz, daonde foi que eu tirei isso??

Talvez esteja sendo meio exigente, o ônibus não parecia tão ruim assim. Bem, não parecia, mas era. Ao pararmos na segunda agência de turismo para recolher outros passageiros, o dito busão não queria mais andar. Problemas com a ignição: lá se vão três bolivianos se enfiarem debaixo do ônibus, procurando o tal cabo desconectado.

Enquanto isso, no andar de cima, todos em clima de expectativa. Uma senhora, com pinta de religiosa, começou a pedir para que mudássemos de carro, que aquele já estava "malogrado", que Deus nos protegesse. Ótimo começo para uma viagem tranquila.

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Mas o tal mini-ônibus se comportou bem. Depois do começo conturbado, a viagem foi tranquila.

Até se chegar ao Lago Titicaca, a paisagem é bem árida e pobre. Um grande descampado marrom, sem árvores ou vegetação, se extendendo até o horizonte. A atração está ali, onde vê-se uma cordilheira de picos nevados. Ao chegar ao lago, é necessário cruzar um estreito através de uma balsa. Na verdade a tal balsa não passa de um barco de madeira, tanto que é preciso atravessar o estreito separadamente: passageiros num barco e busão no outro.

A partir dali a estrada passa a contornar as encostas do lago. O Titicaca é enorme e a paisagem vai ficando mais bonita à medida que subíamos. Ao mesmo tempo, as encostas bastante altas e a estradinha tortuosa faziam lembrar as perfeitas condições de manutenção do nosso querido ônibus.

Cada vez mais perto de Copacabana, a vegetação vai se tornando mais densa. Se chega à cidade por trás: ao cruzarmos uma das montanhas, avista-se Copacabana lá a frente, nas margens do Lago. Chamá-la de cidade é exagero, talvez "vila" seja mais apropriado. Mas uma vila famosa, local de migrações religiosas por abrigar a Catedral da Virgem de Copacabana, padroeira da Bolívia.

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Ainda na saída de La Paz, nosso ônibus, já cheio de mochileiros, parou na praça São Francisco para recolher mais alguns gringos e outros bolivianos.

Lotação completa, acabou sentando-se ao meu lado um daqueles tiozinhos que adoram puxar conversa e não se importam em contar a vida inteira para qualquer desconhecido. Um dia ainda aprendo a fazer isso.

Como ainda fui dando trela, o papo (ou melhor, o monólogo...) durou praticamente toda a viagem. O tiozinho era jornalista aposentado, peruano de Cuzco, foi radialista e narrador de futebol (pudera que falasse muito...) e era todo orgulhoso de ter tido um programa no rádio durante 44 anos. Além disso era uma espécie de católico praticante, já tinha viajado o mundo atrás desses congressos e encontros. Figuraça.

Ah, a mulher dele era aquela religiosa preocupada, que ficou colocando zica no ônibus antes de sairmos. Por algum motivo, ele não quis sentar-se ao lado dela...

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Uma das coisas a se fazer em Copacabana é visitar a Ilha do Sol, o berço mitológico do fundador do Império Inca, Manco Capac. Cheguei, almocei e fui. O tempo urge, minha gente...

Demora-se mais de uma hora para chegar a ilha. No meio do Lago Titicaca, eu e mais cerca de dez outros gringos estávamos instalados em cima do teto do barco, praticamente sendo congelados. A altitude ali fica perto dos 4000 metros acima do nível do mar, o que faz com que, mesmo com sol, o lago produza uma brisa polarmente agradável.

Como todos se unem nas dificuldades, antes de sermos congelados, começamos a conversar. Trocando idéias sobre os roteiros de cada um, em pouco tempo os grupinhos de afinidade já estavam formados. Nessas horas, o silêncio constrangedor não dura mais de dois minutos. E eu, que não tive tempo de me lembrar que era tímido, apenas me deixei levar pela maré. Quando vi, já tinha embarcado na conversa.

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O resultado é que minha viagem solitária durou dois dias. Em meia hora já estávamos combinando de ir a Machu Picchu todos juntos e naquela noite eu já estava jantando ao lado de mais 5 pessoas. As coisas mudam, e rápido.

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Carlos, jornalista brasileiro de uns 30 anos; Cláudio e Carla, casal de bolivianos, ele nascido e criado no Canadá; Stefânia, literata da Universidade de Bologna, 37 anos e perdida na estrada; Peter e Gail, casal quarentão inglês, figuraças dando a volta ao mundo há quase um ano. Todos entraram para a galeria dos personagens da estrada.

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É impressionante como os europeus começam a trabalhar tarde e, enquanto isso, aproveitam para passar o tempo viajando pelo mundo.

Ainda mais impressionante é como cada vez mais os gringos tiram férias de um ano, e, que fazer?, let´s travel around the world.

Ainda hei de descobrir se isso é herança do abençoado Estado assistencialista ou apenas resultado de alguma herança familiar abastada...

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Blues. Era o que ouvíamos enquanto traçávamos uma gostosa truta do Lago Titicaca. Uma truta temperada com bacon, que lhe dava gosto de salmão. Enquanto a truta era acompanhada por uma boa cerveja boliviana, eu e o Peter tentávamos adivinhar quem eram os bluseiros responsáveis por cada música. B.B. King, Howlling Wolf, John Lee Hooker... Todos ali muy bolivianos.

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Não pensei que ia voltar a dormir tontinho tão cedo...

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Gente legal é que nem grama, aparece em qualquer lugar do mundo...

Monday, December 16, 2002



DIA 2 - La Paz

Hoje o dia foi para gastar-se em La Paz. Amanhã já coloco o pé na estrada de novo, com destino a Cuzco. Saio logo bem cedo e vou para Copacabana, uma pequena cidade às margens do Lago Titicaca. Por lá decido se passo uma noite ou sigo direto para Puno, seis horas mais ao norte.

O dia não foi cheio, mas foi bastante cansativo. Esse tal de ar rarefeito me deixou assim, meio esquisito. Subo dois lances de escada e já fico ofegante. Tudo bem, o ar rarefeito mais os meus 7 quilos acima do peso. Além disso, a sensação é que o ar é muito seco, sinto uma baita ardência no nariz. Nos olhos também, algo como se fosse uma sinusite - apesar de nunca ter tido sinusite, imagino que seja assim. Hiponcondrices de lado, o bom é que esse dia serve de adaptação, pois as caminhadas daqui pra frente serão mais pesadas.

Agora estou cansado. Quero escrever mas não quero. Mas como ainda não aprendi a trair prazeirosamente os meus roteiros, me obrigo a escrever um pouco.

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Voltando ao assunto, gastei o dia em La Paz. Andanças pela região central, da calle Illampu à calle Sagámaga, passar pela Igreja São Francisco e descer a grande avenida até a Plaza de los Estudiantes, depois subir até a Plaza Murillo e o Palácio do Governo. Antes de qualquer coisa, a palavra que fica na cabeça é só uma: bagunça.

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A cidade é muito interessante. Com todas as coisas boas e ruins que essa qualidade pode esconder. Um cinturão de prédios que cresce no vale central, a partir do centro velho histórico. Ao redor, cercando toda a paisagem, as montanhas sobem quase todas cobertas por casinhas de tijolo vermelho.

Me volta à cabeça a idéia de favela. Não há barracos, mas aquelas casinhas sem reboque insistem em me lembrar dos morros brasileiros. Mas algo é diferente, não existe aquela sensação de ameaça, de violência. Ao andar pelas ruas não existe aquela sensação de medo que já é difícil de se evitar no Brasil. É claro, aqui pode acontecer algo também, deve acontecer algumas vezes, ainda bem que não aconteceu agora. Mas sente-se nas pessoas uma certa amistosidade, algo de inocência preservada. Ou, se quiserem ser cruéis, a pobreza aqui ainda possui resignação.

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A desorganização muitas vezes dá a impressão de desleixo. Supera a possibilidade de ser justificada pela pobreza, dá a impressão de ser proposital, por mais cruel que possa parecer pensar assim. Lógico, a pobreza é patente, e há poucos, muito poucos lugares onde se vê sinal do dinheiro.

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Mas dá o que pensar. E por isso a cidade é interessante. Num raciocínio raso, este 3º mundo é muito diferente do 3º mundo brasileiro. Na terra brasilis, vivemos diferenças descomunais e pagamos o preço da violência. Mas os minimamente sortudos (aqueles que, com eu e você, lêem textos na internet...), vivem em alguns oásis com condições e estrutura de 1º mundo. Não discuto se isso implica em alienação ou não, apenas digo que temos a possibilidade de viver regiões desenvolvidas, com as coisas boas e ruins trazidas pelo desenvolvimento.

Me perdoem a frase esdrúxula, mas as diferenças aqui são diferentes. A pobreza é generalizada. Não é a miséria faminta e sem-teto, coisa que se vê muito mais frequentemente no Brasil. Mas é muito mais geral e indiscriminada, refletindo uma condição de falta de recursos e de estrutura. Realemente não se vê muitos sinais de riqueza ou de desenvolvimento. Existem, mas estão muito dispersos, ou quem sabe, muito bem escondidos.

É como se aqui não fosse possível ter uma vida de classe média, colonizada, burguesa e confortável. É triste constatar que isso me estranha e assusta.

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O centro histórico é uma grande área que mistura a bagunça e quantidade de gente do Centro de São Paulo, com as igrejas e casarões coloniais de Ouro Preto. Raramente conservados.

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Subi até o último andar de um dos hotéis cinco estrelas da cidade para dar uma espiadela no mirante. A vista era incrível, disponíveis os quatro horizontes de La Paz. Vi pela primeira vez um imenso monte nevado (do qual não descobri o nome) escondido atrás da primeira fileira de montanhas que cerca a cidade. Neves eternas, acho que nunca tinha visto algo assim ao vivo.

Na verdade, o tal mirante trata-se das paredes de vidro do restaurante do hotel. Ao sair, rabo de olho no cardápio. Nem era tão caro assim... Jantei por ali mesmo. Acompanhado do tal monte-nevado-sem-nome, que foi indo embora enquanto as luzes da cidade se acendiam. Devo ser muito metido mesmo...

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As montanhas que cercam a cidade escancaram os subúrbios na cara da gente. De novo, não dá para fugir da sensação de se estar no meio de uma gigantesca favela. Sei que estou comparando bananas com laranjas, que estou estranhando as diferenças. Mas não tem jeito, caio no padrão brasileiro de novo. Mesmo quando estive no Rio não tive esta sensação. Ou tive?

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Tarde de soneca, revista, cochilo, livro. Mais tarde, arrumar a mala. E amanhã pé na estrada de novo...

Tuesday, December 10, 2002



DIA 1 - De São Paulo a La Paz

Estava ansioso no carro. Fiquei também um tanto nervoso no avião. Medo de avião, agora? Até parece que nunca viajei antes. Mas sei que o medo não é do avião. O medo é de ir, de ir sozinho, de ter que lidar comigo mesmo, por minha conta e risco. Vai ser muito bom, é claro, mas nem essa crença me faz ficar menos ansioso na saída de São Paulo.

Pode parecer coisa de criança, irracional e besta, mas sei que isso é normal. Afinal é a primeira vez que vou ficar realmente sozinho após um ano e meio de mudanças, encanações e crises de ansiedade. Mesmo com tudo já resolvido, estar em casa é sempre confortável. Agora é enfrentar-se em campo neutro.

Vai ser ótimo isso. Encarar os medos, deixar o negativismo de lado. Mudar de ares, ter nova rotina, ver novas pessoas. Eu por mim mesmo, aproveitar. E parar de dramatizar a vida, por mais que já esteja fazendo isso aqui.

Só sei que aqui neste quarto laranja, já com as narinas secas pelo ar rarefeito da altitude, já me sinto bem. Só o começo...

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O danado vôo de ida para La Paz tinha duas escalas. Maldito pinga-pinga de três decolagens e três aterrissagens. Mas a ansiedade ficou apenas com a primeira das decolagens.

Ainda na pista de Santa Cruz de la Sierra, a primeira escala, engatei uma conversa com um senhor que viajava para Cochabamaba, minha segunda escala. Era professor, inglês e ia fazer uma palestra.

Já tinha ensaiado um início de conversa antes. Mas sempre algum receio me travava e acabava não dizendo nada. Essa minha timidez é engraçada, fico alternando a vontade de dizer algo com o receio de tomar a iniciativa. Objetivamente, acho que é medo dizer algo tolo, de incomodar ou, nesta situação especificamente, que o gringo não entenda o que eu disser. Besteiras de pensar demais.

Vencida esta etapa, tasquei um comentário sobre alguma futilidade (coisa como o fuso horário da Bolívia...) e aí começamos a conversar. O sujeito é professor de uma universidade sueca, arquiteto, e trabalha com alguns convênios que essa universidade possui com cidades do 3º mundo. Faz uma espécie de assessoria em projetos de planejamento urbano e de melhoria social destas cidades.

Falei um pouco de mim também, do que fazia, etecéteras, e foi isso. Papo simples, curto, mas agradável. Ao invés de me lamentar por não ter falado nada, uma sensação boa de dever cumprido. Como já disse a Má, em uma daquelas declarações de alto-impacto que a gente nunca esquece, preciso começar a não me achar tão desinteressante. E saber que outras pessoas também gostam do contato, da gentileza, da proximidade.

No mínimo, a conversa amenizou a espera pelos pousos e decolagens.

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A população boliviana no vôo da LAB era composta por pouca gente bonita, mas também por pouca gente com o tradicional e caricato biotipo indígena.

Desconfio que a razão seja o fato de que os índios aqui são a maioria e, como toda a maioria, são pobres. O pessoal herdeiro da colonização espanhola forma a classe dominante, mais abastada e que viaja de avião.

Está na cara deles.

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Com o perdão do trocadilho, chega-se em La Paz literalmente pelas alturas. O aeroporto fica a uma altitude de 4000 mil metros acima do nível do mar, numa região ainda acima do nível da cidade, uns 3800m. Assim, mesmo sendo a capital mais alta do mundo, para chegar a La Paz você ainda tem que descer uma pequena serra em direção ao centro do vale onde a cidade se localiza.

Uma série de prédios muito altoe se enfileira pelo meio do vale. Ao redor deles, milhares de casinhas e sobrados vão se apinhando pelas montanhas. A maior parte dessas casas com os tijolos vermelhos a vista, como se faltasse tinta na Bolívia. Qualquer semelhança com as favelas brasileiras eu esperava que fosse mera coincidência.

Desde o aeroporto, o taxi foi praticamente se afundando na cidade, em direção à zona central onde ficava o Residencial Copacabana. Nome familiar é sempre bom, principalmente na primeira noite. Pela janela tudo muito estranho, bagunçado, diferente.

Mas apesar da estranheza que a cidade causa ao primeiro impacto, ainda é cedo para impressões definitivas. Já era noite e estava chovendo. Além disso, o primeiro sentimento foi bom. O povo aqui parece simpático, receptivo.

Amanhã tenho o dia todo para fazer a prova dos nove.

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Juro que o taxista me lembrou aquele do "Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos" do Almodóvar. Bom, tá bom, não vamos exagerar. Não era o motorista, mas sim o táxi, cheio de tapetes coloridos espalhados pelos bancos e cobrindo o painel.

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Comi uma pizza muito boa num restaurante com o cardápio todo escrito em hebreu. Além disso, anexo ao restaurante havia um cybercafé cheio de gente jovem, todos parecendo se conhecer e falando uma língua esquisita. Nas paredes mais cartazes com dizeres hebraicos. Um verdadeiro kibutz no meio da Bolívia. Esquisito, no mínimo.